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Humanização do caos: intervenções da psicologia hospitalar frente ao coronavírus

No último dia 11, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou que a Covid-19, nova doença causada pelo novo coronavírus, é uma pandemia. Essa informação já era esperada há algum tempo, visto que em poucas semanas houve disseminação nos cinco continentes, com algumas regiões mais acometidas.

Levando-se em consideração o pouco tempo de pesquisas e o contato com as primeiras repercussões práticas da doença, as orientações e informações podem ser atualizadas com frequência, causando confusão e alarde na população geral, para além da medida.

Nós, profissionais da saúde, frente a situações como esta, somos rapidamente treinados, e nos cercamos de informações atualizadas e oficiais sobre time de resposta rápida, recomendações e precauções no manejo dos atendimentos e assistência aos casos suspeitos. Entretanto, será que estamos verdadeiramente preparados para lidar com uma pandemia, que tem gerado reações emocionais intensas na população? Estamos preparados para o caos psíquico ou apenas para a assistência ao quadro orgânico do paciente?

Humanização frente ao coronavírus

Um primeiro ponto, envolve o treinamento integral nas instituições. Pouco adianta treinar a equipe assistencial se profissionais da recepção, técnicos assistenciais e profissionais do apoio não conhecem as recomendações e informações mínimas sobre a doença. Promover informações somente para o “miolo” de uma instituição, nunca será eficiente par controlar e conduzir doenças infectocontagiosas. É preciso lembrar que os profissionais da porta de entrada e do apoio, têm contato direto com o paciente/familiares, apresentando um risco aumentado de contaminação e disseminação do vírus. Um outro ponto ainda essencial, é a reação destes profissionais “não treinados”, frente ao contato com um caso suspeito.

O primeiro contato da família de um paciente que está sendo hospitalizado em um pronto socorro, é com o atendente. Essa pessoa, deve estar preparada para realizar um acolhimento a quem chega, e para que isso seja possível, o profissional deve ter as informações e treinamento necessários para se proteger (sem falhas nem excessos), e sentir-se seguro no atendimento.

O segundo contato é com o time de profissionais da saúde. Esse grupo, deve ser capaz de triar com assertividade, realizando levantamento de informações para além do óbvio. Em fases como esta, em que as manifestações sintomáticas ainda são parcialmente inespecíficas, apenas olhar sintomatologia e pedir exames sem uma anamnese adequada, aumenta o período de latência em que o paciente ficará exposto em área comum, sem que se cogite o isolamento e exames específicos.

O time assistencial, deve estar treinado, não apenas para manejar aspectos predeterminados, como o isolamento, utilização de EPIs, exames padrão, etc. Devem estar minimamente conscientes sobre o impacto de uma pandemia na realidade emocional e comportamental da sociedade. Diferentemente de nós, que recebemos e buscamos informações específicas, o público leigo acompanha informações através dos noticiários, e de tal forma, não há filtro para o perfil de notícia que chega até eles. Em fases iniciais, muito é o alarde e poucas são as informações oficiais em mídia, e tais notícias sofrem a manipulação de quem as colhe, de quem prepara, e de quem escuta, dando o tiro de largada para a instalação do caos.

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Frente a isso, a realidade mais assustadora nem sempre é saber lidar com a doença. Torna-se ainda mais desafiador, lidar com o resultado secundário: aquele criado no imaginário dos indivíduos. Imagine só a cena de pessoas chegando desesperadas aos serviços de saúde, com sintomatologia semelhante à do coronavírus, sendo recebidas pela equipe como “caso suspeito”, implantadas todas as medidas adequadas de precaução até a chegada dos resultados oficiais, sem que paciente e familiares sejam devidamente orientados sobre o processo. Angústia, ansiedade reativa, desespero, choro, fantasias… situações que poderiam ser reduzidas em proporções consideráveis, se o treinamento de equipe incluísse o foco humano, e não apenas técnico.

É evidente que o que salva vidas em casos agudos, é a triagem adequada, agilidade do serviço, identificação precoce e tratamento assertivo. Mas a que custas isso será feito? Será que promover um atendimento humanizado desde a porta de entrada do paciente na instituição consome tanto tempo, que prejudique o andamento da assistência? Será que o cuidado não envolve atenção aos sintomas globais do paciente, incluindo os sintomas psicoemocionais? Será que a assistência hospitalar não envolve inclusão de cuidados à família? Onde fica a clínica ampliada criada pela Política Nacional de Humanização (PNH), que determina a consideração do sofrimento e singularidade do sujeito em uma condição de adoecimento?

Não há motivos nem justificativas para a exclusão do cuidado humanizado, seja em situações eletivas, emergentes ou caóticas. A atenção a saúde emocional do paciente e familiares, inclusive influencia de modo direto na condução do tratamento. Quando a comunicação é efetiva e o usuário percebe engajamento e cuidado da equipe, a confiança se estabelece. Com confiança, o assédio à equipe diminui, tornando a condução do tratamento menos estressora. As informações suficientes auxiliam na de redução da ansiedade, redução de fantasias e influenciam no próprio processo de assimilação e adesão.

Em situações como esta, é preciso pensar a humanização em sua condição mais ampla, conforme prevê a PNH: cuidado ao paciente, família e EQUIPE. A pesar da necessidade de se atentar ao impacto emocional sofrido pelos usuários frente a pandemias, é ainda mais importante prevenir e intervir no impacto causado aos profissionais de saúde. Nós, estamos na linha de frente do cuidado, na barreira de contato mais próximo e direto com todas as enfermidades possíveis. E sim!!! Muitas delas nos assustam. Somos estudiosos, cientistas, trabalhamos com práticas baseadas em evidências, e ainda assim temos medo, seja em maior ou em menor grau. O medo é inerente ao humano, e somos humanos.

Somos tão susceptíveis ao coronavírus e às outras doenças existentes, quanto qualquer outro ser humano que habita a Terra. Só que escolhemos cuidar. Ainda maior que a preocupação consigo mesmo, por vezes, o profissional da saúde é acometido pelo medo de ser o contaminador, afinal, também tem família. Alguns, com crianças pequenas em casa, outros com maridos, esposas, pais, avós, pessoas que estão ou não na faixa de risco, que não escolheram estar dentro de hospitais em contato com tudo isso, assim como nós. O nosso sofrimento é por nós, e pelos nossos. Minha sensibilização aqui, é pela importância das gestões hospitalares em perceber o quanto uma pandemia coloca frágil quem está na assistência. Os profissionais ali, em contato direto com o paciente, realizando procedimentos técnicos, tentando cuidar, salvar, amenizar, buscam conter o caos social, e também o caos interno sentido em silêncio.

A psicologia hospitalar, em situações como esta, tem o papel de mediar as relações entre os usuários e equipe de saúde, identificando as principais demandas que geram impacto à saúde mental, auxiliando de modo direto ou indireto, na adaptação ao processo de adoecimento, e fortalecimento dos recursos de enfrentamento dos envolvidos. Trabalha-se com questões técnicas da psicologia, mas também com processos orientativos, psicoeducação, treinamento de equipes, preparação complementar dos times de resposta, e com as demandas emocionais individuais ou grupais que surgem no processo.

Mais da autora: Características gerais da atuação psicológica na doença crônica

Abordagem da psicologia hospitalar

Coloco aqui abaixo, alguns dos processos essenciais de manejo na situação do coronavírus realizados pela psicologia hospitalar, que auxiliam em grandes proporções na redução do impacto da doença na saúde mental e sofrimento dos envolvidos.

Aspectos de intervenção:

  • Treinamento institucional para melhoria na efetividade da classificação de risco e triagem (telefônica e presencial), para que os pacientes com alto risco da doença sejam identificados o mais prontamente possível;
  • Comunicação assertiva e treinamento da equipe assistencial para uniformização das falas na instituição, a partir das recomendações oficiais; (A incompatibilidade nas informações repassadas ao usuário, é a principal causa de insatisfação com a assistência e sensação de insegurança relacionada à equipe. Além disso, ausência de informações associada à angústia, abre espaço para a criação de fantasias, que geram sofrimento, estresse e possuem difícil condução posterior por parte da equipe)
  • Otimizar e reduzir o tempo de espera por informações; (informações periódicas, ainda que não conclusivas, fortalecem o vínculo de confiança, e promovem no usuário a sensação de “cuidado” e atenção;
  • Formas alternativas de informação: criação de material impresso que contenha as principais informações de prevenção, manejo e contágio da doença, para que os familiares saibam como se portar no ambiente hospitalar no contato com o paciente;
  • Orientações aos familiares mais próximos ao paciente com suspeita/confirmação do vírus, sobre precaução em sociedade (atenção a possíveis sintomas, e isolamento durante período de incubação do vírus para evitar disseminação);
  • Treinamento da equipe assistencial e de apoio para evitar situações discriminatórias e constrangedoras por falha de conhecimento técnico (a melhor prevenção é o conhecimento);
  • Atendimento individual ao paciente e familiares para redução de ansiedade e desmistificação de fantasias, favorecendo modos mais efetivos de adaptação e enfrentamento;
  • Acompanhamento psicológico familiar mais próximo, quando o paciente estiver na faixa de risco (suporte emocional frente as mudanças do quadro, agravamento, riscos envolvidos);
  • Momentos de abordagem em grupo à equipe assistencial, favorecendo manifestações emocionais, trocas de experiências e manejando alterações emocionais reativas presentes na atividade profissional;
  • Assistência inicial ao profissional com sinais de contaminação – suporte emocional.
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